Cavernas de Waitomo
Nova Zelândia Oceania

Cavernas de Waitomo

Se lança pra Waitomo Caves, na Ilha Norte da Nova Zelândia.

Viajantes, ai vai mais um post de convidado especial do Se Lança. Meu primo, Murilo, se lançou pela iluminada caverna de Waitomo, na Nova Zelândia e conta abaixo sua experiência. Espero que gostem e se animem a conhecer mais um lugar peculiar deste nosso mundo.

Guest post por Murilo Pinto

Oy, mate, u g’d? Sweet!
Bom, pra começar, eu sou o primo que viu chupa-cabra. Quem leu esse post aqui, entendeu a piada. Garanto a vocês que há pessoas no Alexandra’s, em Rotorua, bem depois da meia-noite.

Mas, o convite foi pra falar de Waitomo. Que fica em Waikato. Região que, não por acaso, é o cenário do Condado. É, o dos hobbits. Mas eu não cheguei a ir a Matamata, que fica a meio caminho entre Hamilton e Rotorua e mantém Hobbiton, a cidade dos halflings.

hobbiton

Foto by hobbitontours

Waitomo fica do outro lado. Do lado do Mar da Tasmânia, entre Nova Zelândia e Austrália. Rotorua e os hobbits estão na metade banhada pelo Pacífico. As diferenças geológicas, que marcam as paisagens e atrações turísticas dessa terra, definem as regiões. Enquanto Rotorua tem lama borbulhante, gêiseres e lagos sulfúricos, Waikato tem colinas e vales verdes. E Waitomo, sob as colinas, tem as cavernas.

O nome já diz: buraco (tomo) d’água (wai). A água mole em pedra calcária forma centenas de cavernas, algumas com muitos quilômetros de extensão. Só as mapeadas são mais de 300. A geologia torna a vida dos criadores de gado leiteiro um tanto complicada, já que os buracos podem surgir nos pastos a qualquer momento. Os 3,5 mil km2 da região são ocupados por menos de 10 mil habitantes, distribuídos em “cidades” com menos de 500 pessoas. A exceção é a capital do distrito, com quase 5 mil moradores.

Chegando

Waitomo Caves (que eu não sei bem se é uma cidade, town, village…) é a terra dos glowworms e das cavernas, fica a 2h40 (190km) de Auckland e 2h10 (150km) de Rotorua.

Se for de carro, fique atento. Os POI (pontos de interesse) ficam espalhados ao longo da estrada. São dois centros principais de referência: Juno Hall (um backpackers grande, onde o ônibus para) e Waitomo General Store, que é o “centro” da vila. Em volta tem várias opções de hotel/motel/camping, bar (no singular), lanchonete (idem) e restaurante (idem), mas tudo bem perto mesmo. Saindo uns km de carro tem outras opções, mas não conheci.

É também aqui que fica o mágico i-Site. Sério, você não precisa se programar muito pra viajar pela Nova Zelândia. Esses lugares, do governo, fornecem tudo o que você pode precisar. Todo agendamento e reserva de hotel, atividades, ônibus ou sei lá o quê pode ser feito neles, grátis.

Eu fiquei no Waitomo Caves Lodge, a uns 100m do i-Site. São uns chalés simples, mas bem reservados e espaçosos, todos com vista pra lugares diferentes. O meu era pro vale. O trio de velhinhos que cuida do lugar (Colin, Janet e a cadelinha, já surda de idade, Gipsy) são simpaticíssimos (só não peça late-checkout…); você é recebido com cookies caseiros e pelo cheiro das flores do jardim. A filha deles (que pelas histórias, é bem porraloca, mas não espalhem) morou em Araxá (MG) e depois em Carajás (PA) e São Paulo, antes de voltar pra Nova Zelândia. Converse no café, peça carona ou dicas… Eles são superdisponíveis, mesmo.

Na vila fica também um hotel com um quarto de hobbit. Falando neles de novo, na região, mais exatamente meia hora ao sul de Waitomo, em Piopio, foram gravadas as cenas do encontro com dos hobbits com os trolls, Ragadast e a espada de Bilbo. Mas em Waitomo já dá pra sentir o ambiente.

Não deixe de fazer “uma das 10 melhores caminhadas curtas do mundo” (Colin repetia isso a todo instante), saindo da vila em direção ao grande campo de rugby logo em frente. Se estiver de carro, pegue uma lanterna (os hotéis devem ter, se esquecer de levar), rode uns minutos até a melhor entrada e faça a Waitomo Walkway de noite, lá pelas 21h. A lua no céu e os glowworms, espalhados pelo chão, arvores e barrancos, criam uma paisagem única, de fantasia, mesmo.
Não é por acaso que a Terra-Média é aqui. Porém, como tudo na Nova Zelândia, gostar de Tolkien não é requisito pra curtir a viagem. Em Waitomo, não se fala no filme. Se fala em cavernas e trilhas, basicamente.

As opções mais populares são, bem, populares. Mas são mais de 300 cavernas conhecidas, boa parte delas explorada turisticamente, então a menos que esteja sentindo falta de calor humano, há opções menos hypadas — e mais legais (com o perdão da redundância).

Glowworms

Esses bichinhos são extremamente curiosos. Não servem pra nada. Não têm lugar no ecossistema. São basicamente canibais, não servem de comida pra nenhum outro animal, não fertilizam plantas, vivem pouquíssimo tempo depois de adultos, até porque não têm boca. Duram dois dias, só o tempo de se reproduzir e criar mais larvas brilhantes.

Nesse país, até os insetos são feitos pro turismo!

glow_worm_se_lanca                                           Foto by Evan Bowen – YWT

Pra ver os glowworms, você pode optar pelas cavernas mais antigas e conhecidas e disputar espaço com os turistas bate-volta dos ônibus, os chineses e todos os que andam com pacotes de turismo. Essas cavernas são lotadas, calçadas e iluminadas, com lojinhas e cafés na entrada.

Mas eu sugiro a Spellbound. Todas as avaliações que vi antes a colocam em posição melhor que as outras, e realmente a quantidade desses bichos na caverna é absurda. E o guia realmente é um apaixonado pela região. Expedições subterrâneas de vários dias sem contato com a superfície fazem parte da adolescência desse pessoal. Imagine crescer descendo nas cavernas inexploradas, acampando lá embaixo só com a luz dos worms… Eu entendo a paixão.

caverna-do-ceu-estrelado

E não há exagero em falar que os glowworms iluminam as cavernas. Sem luz artificial, uma verdadeira via láctea (a que se vê em uma fazenda do interior, não nas cidades contaminadas de poluição luminosa) se forma no teto e nas paredes das cavernas, refletida também na água dos riachos.

Outra visão comum são carcaças de kiwis, vacas e moas caídas dos buracos abertos no pasto e mata ou caçadas por cães selvagens em outros tempos, que ocupavam os refúgios rochosos. O passeio pela Spellbound dura 3h, contra 45min dos mais populares.

carcaça de moa

Mas se passeios mais calmos não te atraem, se já viu os glowworms ao ar livre ou a grana tá mais curta, pule. Vá direto pro turismo de aventura. As opções são variadas e você verá, ainda que não tantos, muitos vermes brilhantes. O suficiente, talvez.

Você precisa escolher, primeiro, se quer se molhar ou não. Depois, se quer descer muito de uma vez ou se prefere fazer várias descidas menores. E se quer almoçar dentro da terra. E, sim, em um dos lugares mais próximos do centro da Terra (exceto um submarino). Também é bom decidir entre mais esforço e emoção ou uma diversão menos exigente.

Como fui nos glowworms e tinha tempo só pra mais uma atividade, escolhi uma descida grande, seca e sem almoço: Lost World, 4h (a opção com almoço é molhada e dura 7h; a primeira parte é igual). Um rapel (lá eles chamam de abseiling, because kiwi de 100m de altura dá as boas-vindas a esse vale, realmente digno de Senhor dos Anéis (ou Jurassic Park, ou Viagem ao Centro da Terra, ou Avatar, ou…).

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Pra ter uma ideia, 100m é mais ou menos um prédio de 25 a 30 andares. Pra uma primeira descida, é bem razoável. Mas mesmo quem tem medo de altura (eu) consegue fazer. Depois dos primeiros 30m, o corpo começa a aceitar. É bem fácil de operar e parece suficientemente seguro. Não tem bem um curso antes, só uma trilhazinha pra se habituar a trocar os mosquetões (aberturas invertidas, um sempre preso) e posicionar as mãos (nunca segurar em nada metálico, sob pena de uma cerveja na volta).

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Yeah, nah, yah, yah!
Esqueça as fotos próprias. Como diz um amigo: eles não têm vergonha de cobrar. Em algumas situações, é compreensível, porque a câmera pode ser uma distração muito grande e comprometer a segurança. Acho que era o caso. Fora um mala metido a fotógrafo atrasar todo o grupo. De um jeito ou de outro, reserve dólares pra comprar o pendrive personalizado com as fotos que o guia tira em pontos (e poses) específicos.

Além do thrill da descida, a paisagem desse lugar é surreal e merece ser apreciada. Depois do rapel, segue-se uma caminhada pelo vale até a caverna propriamente dita. Comentários informativos são transmitidos pelo guia por todo o trajeto. Há um momento pra tomar e comer chocolate. Os vermes luminosos estão lá. Enguias enormes também. E os wetas, claro.

No final, “a poor’s man elevator” waits for you. Prepare-se para subir quase 40m em uma escada, dessas de caixa d’água. O elevador é o guia, que sobe primeiro e “puxa” a corda de segurança. Pelo menos, ele jura que puxa…
A escada é enlameada e a bota pode escorregar. Eu quase vacilei e por pouco não caí (de novo, mas isso é outra história) uma hora.

Nas outras opções, estão rafting, boia-cross, nado, pulo em cachoeira, escaladas e rapels menores, tudo subterrâneo. Em todas estarão presentes os glowworms e formações rochosas diversas. O desafio físico e emocional de cada uma varia bastante, assim como preços e horários. Pick your poison.

Have fun e passe longe do marmite (tenho certeza que é feito com termites)!

Se lança!

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